Era véspera de Natal, tinha 10 anos. Estava na casa de uma tia, na qual seria realizada a ceia com toda a família. Muita euforia desde cedo, um corre-corre frenético com os adultos na cozinha e as crianças brincando no quintal ou tentando adivinhar que presente ganhariam.
Por volta das 9h da noite, minha alegria deu lugar a uma tristeza que somou-se à melancolia. Pouco depois, ao contrário dos demais, estava deitado no sofá, quieto. De repente começou a me dar falta de ar e uma sensação de que o coração iria sair pela boca. Socorrido pela minha mãe e parentes, que me abanavam e massageavam meu peito, 15 minutos depois estavam bem, porém muito assustado.
No dia 26 de dezembro minha mãe me levou a um cardiologista. Este, depois de um exame na própria clínica, diagnosticou "sopro no coração', com uma ressalva: eu não poderia correr, subir escadas às pressas, pegar peso, etc. Eram férias escolares e eu, um garoto de 10 anos, não obedeci às terríveis orientações médicas.
No dia seguinte estava jogando futebol, correndo atrás de pipas e brincando de pique. É lógico que o diagnóstico estava errado. Como é lógico também, que os sintomas por mim apresentados sugeriam cardiopatia.
Mas isso eu constato hoje, 37 anos depois. A falta de ar aos 10 anos e o parecer do cardiologista foram o início de uma via-crúcis de quase quatro décadas.
Depois disso fui parar na emergência do Hospital Souza Aguiar achando que estava enfartando; uma ambulância foi à minha casa pelo mesmo motivo; deixei festas, almoços e jantares, repentinamente, com a sensação de que a morte estava chegando.
É claro que, concomitante aos surtos, foram centenas de visitas a consultórios das mais variadas especialidades, psicólogos e afins. Os diagnósticos também foram múltiplos: sopro no coração, anemia profunda, problemas no aparelho respiratório, distúrbio neurovegetativo, ansiedade crônica, depressão, estresse, esgotamento nervoso, etc.
Havia, também, comentários nada animadores como: "é frescura", "preguiça", "faniquito", "falta do que fazer"; Juntando tudo isso, meu organismo recebeu as mais variadas medicações desde o antigo Somalium antidistônico, passando por Tranxilene, Diazepam, Lexotan, Complexo B + C, stresstabs, chás de camomila, simpatias, rezas, etc.
E o tempo ia passando, com os surtos agora tendo se incorporado de vez a minha vida. Nos últimos anos não ia mais a festas, cinema ou teatro. Até o prazer de praticar esportes havia perdido. era o medo de passar mal, de sentir a aproximação da morte. desagradável. a única coisa que ainda fazia, na "marra", era ir ao trabalho, onde, também, não me sentia confortável.
E foi no trabalho que, há três anos, conversando com uma amiga recém contratada, descobri que tínhamos algo em comum. Aquilo que viria descobrir que era a Síndrome do Pânico.
Fiquei à vontade em conversar porque, finalmente, poderia me expor sem ter alguém para me rotular de débil mental ou fresco. Ela já estava em tratamento psiquiatra e perto de receber alta. Eu, já desanimado com médicos, cura ou possibilidade de me livrar deste fantasma, não aceitei a sugestão dela para ir no seu médico. Como um anjo colocado por Deus em meu caminho, ela insistiu e, melhor, me levou pela mão ao seu psiquiatra. Fui nele numa sexta-feira, véspera de carnaval, no ano de 1997. foram mais de duas horas.
De um lado eu, um homem que já acostumara com sua dor; do outro, o Dr. Hidemitsu Hishinuma, com seu olhar oblíquo, mas um sorriso cálido, calmo, que vinha do fundo da alma.
Confesso que contei minha história sem muita boa vontade. Afinal, o caso já se arrastava há mais de 30 anos e ali era mais um consultório. Depois de muito falar, ouvi o Dr. Hishinuma. E nunca mais vou esquecer, este primeiro encontro. ele me explicou tudo: o que era a Síndrome do Pânico, que era aquele o meu diagnóstico e que eu ficaria curado.
Saí de lá medicado no corpo e na alma. Depois de quase três anos com o Dr. Hishinuma, posso dizer que sou outra pessoa. Sinto-me clinicamente curado, já que posso encarar todas as situações críticas, que outrora não conseguia enfrentar, de forma bem natural, bem espontânea.
Mas as marcas, os traumas, estão instalados no meu inconsciente. Ainda assim, pelo menos sei, que um problema que vivi durante 30 anos em sofrimento, criando uma série de meios para me defender do pânico, agora necessito de algum tempo para reaprender a viver.
Existe coisa melhor para quem "pastou" tanto na vida? Fui informado pelo Dr. Hishinuma sobre a hereditariedade; então, gostaria que a minha filha adolescente relatasse o que aconteceu com ela.
" Eu era uma adolescente normal de 17 anos, curtindo a vida adoidado, quando fui surpreendida por um mal estar profundo quando comprava chocolate em um supermercado. Este mal estar me levou a um desmaio em uma banca de jornal; vi um mundo negro, estranho e frio, onde meus pés flutuavam e minha alma saía de mim. Pensando que era apenas um desmaio proveniente de fraqueza, logo achei que não iria acontecer mais. Porém, voltei a ter o mesmo problema repedidamente e em lugares diversos.
Não conseguia ficar em ambientes com muita gente, como o curso pré-vestibular (120 pessoas na sala de aula), ônibus e boates. Por incrível que pareça, eu que era livre, totalmente independente, me senti novamente uma criança, dependente, insegura, e não conseguia mais sair sozinha.
Com isso, me isolei do mundo em minha casa, deixando para trás o que mais gostava. Foi quando a mão mais preciosa me foi estendida e comecei a entender o que tinha acontecido. O homem, que para mim é comparado ao maior de todos, o meu pai, comparou meus sintomas ao mal estar que o acometia há anos.
Fui ao consultório do Dr. Hishinuma que, incontinente, diagnosticou a Síndrome do Pânico. Por ser jovem e ter sido medicada logo após o primeiro surto, fiquei curada em 6 meses.
Hoje, não tenho mais medo: saio só, trabalho, divirto-me, enfim, faço de tudo sem medo de ser feliz." Conversando a respeito com a minha mãe de 73 anos, ela disse que desde criança também sentia falta de ar, pernas bambas, tonturas. Disse ela também que sua irmã, aos 30 anos, não queria sair da cama, sempre com medo de passar mal; com isto, foi até levada para um hospital psiquiátrico, sem que nenhum médico tenha chegado a um diagnóstico ou tratamento preciso.
Estes fatos reforçam a afirmação de que a Síndrome do Pânico é hereditariedade. Pelo meu lado de paciente, só posso dizer que quem sofre ou sofreu da Síndrome do Pânico sabe o que é percorrer este calvário, mergulhar num inferno depressivo, sendo até paradoxal, pois se no surto um dos maiores medos é o de morrer, a continuação deste mesmo surto nos leva a uma morte virtual, onde o cérebro só dá um comando: "encolha-se".
E neste encolher a gente morre para o mundo, se torna uma nesga humana, um quase nada. Desde então, o Natal faz mais sentido para mim. Hoje, tenho a alegria de ter renascido!
WALMYR PEIXOTO, JORNALISTA
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